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Análise do artigo da National Geographic “Os cientistas estão finalmente a decifrar como a acupuntura alivia a dor”

 

Introdução

Pode pensar-se que a acupuntura, por ter surgido numa era pré-científica, carece de lógica subjacente ou de critérios rigorosos na sua ação terapêutica. No entanto, é precisamente ao contrário, e a ciência tem vindo a provar exatamente isso.

Anualmente, são realizados e publicados milhares de estudos científicos sobre a aplicação da acupuntura no tratamento de dezenas de patologias, não se limitando apenas a abordar o tratamento da dor. Desta forma, a investigação contemporânea tem vindo a aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos fisiológicos e neurobiológicos envolvidos, demonstrando de que forma esta terapêutica milenar pode contribuir para a promoção da saúde e para o tratamento de múltiplas doenças. É por isso que a acupuntura é considerada uma das terapêuticas naturais de maior assertividade a tratar doenças de todo tipo, havendo mesmo situações que se tem revelado ainda mais eficaz do que fármacos.

Porque, já existe uma compreensão bastante ampla e um consenso crescente na comunidade científica acerca do funcionamento e da eficácia da acupuntura,  é que a prestigiada revista National Geographic decidiu trazer este assunto ao grande público através de um artigo dedicado precisamente a esta temática, que iremos esmiuçar ao longo deste texto, para que possamos proporcionar-lhe uma compreensão mais profunda sobre a acupuntura, explicando os mecanismos já conhecidos pela ciência para explicar a sua ação terapêutica, e assim se sinta ainda mais confiante ao recorrer aos nossos tratamentos.

 

O mistério da acupuntura revelado

O artigo da National Geographic (NG) começa por lembrar que durante muito tempo não se entendia como a acupuntura atuava, descrevendo-a como “uma zona cinzenta entre a medicina e o mistério”, especialmente porque esta terapêutica recorre a uma linguagem muito própria, usando termos como Qi e Yin-Yang, por exemplo. Contudo, logo a seguir, reforça que, atualmente, já há uma perspetiva muito abonatória da acupuntura, graças aos avanços da ciência:

“…os avanços na imagiologia e na investigação clínica estão a mudar esta visão. Os cientistas estão a descobrir como uma agulha pode desencadear uma reação em cadeia dentro do corpo, ativando células imunitárias, libertando substâncias químicas moduladoras da dor e alterando a atividade cerebral. “
“O que está a emergir é uma imagem mais clara de uma resposta mensurável em todo o organismo…”.

Este parágrafo é talvez a mais importante de todo o artigo, pois deixa de uma forma clara que a ciência já identificou muitos dos mecanismos fisiológicos que a acupuntura desencadeia no organismo. E avança, dizendo:

“O que está a emergir é uma imagem mais clara de uma resposta mensurável em todo o organismo…”.

É desta forma que a NG indica que a acupuntura tem aplicação em doenças de outra natureza, não apenas no tratamento da dor, ou seja, pode ter um efeito amplo em todo o organismo.

Finalmente a acupuntura está a ser revelada pela ciência e deixou de ser assim tão misteriosa…!

 

Os efeitos das agulhas

Durante muito tempo, o uso de agulhas na acupuntura foi encarado como algo estranho e difícil de explicar, sobretudo porque não se compreendia de que forma a inserção de agulhas na pele poderia produzir efeitos terapêuticos no organismo. As primeiras hipóteses sugeriam que os benefícios observados poderiam resultar apenas de um efeito de sugestão ou placebo, já que, à primeira vista, nada indicava que um estímulo desta natureza pudesse desencadear respostas fisiológicas relevantes.
Contudo, hoje já se conhece muitos dos efeitos terapêuticos desencadeados ao se inserir uma agulha num ponto de acupuntura, como o artigo da NG refere: 

“À medida que a investigação clínica avançou, os cientistas começaram a compreender melhor o que acontece quando uma agulha entra em contacto com o tecido, afirma Ming Xiao Yang, professor assistente da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, cujo laboratório de saúde integrativa explora a MTC através de tecnologia de ponta.”
“A resposta começa localmente. A ligeira tração mecânica provocada por uma agulha, conhecida como mecanotransdução, desencadeia uma cascata de sinais bioquímicos no tecido conjuntivo circundante. Esta atividade leva os mastócitos da pele (que funcionam como uma primeira linha de defesa do organismo) a libertarem compostos como histamina, serotonina e adenosina nos tecidos próximos. Esses sinais estimulam depois as terminações nervosas, enviando mensagens para regiões cerebrais envolvidas no processamento e modulação da dor.”

“A acupuntura também pode ativar vias mais amplas de regulação da dor, incluindo uma sensação do tipo “a dor inibe a dor”, em que um estímulo pode reduzir a perceção de outro, explica Yang.”

 

O que a ciência está a descobrir

Durante o século passado houve dificuldade em perceber como desenvolver estudos válidos que explicassem a ação terapêutica da acupuntura, pelo que houve quem afirmasse que a acupuntura não tinha validade científica. Mas o problema residia na ciência, que na época era pouco evoluída e estava presa num pensamento redutor. Contudo, isso não impediu o continuo crescimento de popularidade da acupuntura…

É já nas últimas duas décadas que os estudos científicos finalmente passaram a usar recursos mais avançados e de uma forma mais sagaz, e logo a acupuntura começou a ser melhor compreendida. Assim, após anos a ser investigada, finalmente há a compreensão de muitos dos mecanismos fisiológicos desencadeados pela acupuntura, o que explica a sua eficácia terapêutica:

“Nos últimos anos, os avanços na imagiologia tornaram os efeitos antes invisíveis da acupuntura cada vez mais observáveis. Exames de ressonância magnética funcional (fMRI) de alta resolução mostram como a estimulação de pontos específicos de acupuntura está associada a alterações na atividade cerebral, incluindo em regiões envolvidas no processamento da dor e na regulação emocional.

Entretanto, imagens obtidas por raios X de baixa intensidade captaram células imunitárias a deslocarem-se em direção às agulhas de acupuntura, onde libertam mediadores da dor. Até as ecografias estão a ajudar os investigadores a observar, em tempo real, o efeito em cadeia provocado pela tração da agulha e a forma como esses efeitos podem variar consoante o local onde a agulha é inserida.

Em conjunto, estas ferramentas estão a começar a mapear a forma como um estímulo localizado pode repercutir-se por todo o corpo - ligando os tecidos periféricos, as respostas imunitárias e as redes cerebrais de processamento da dor. Psicologicamente, a simples expectativa de uma possível cura também desempenha o seu papel, acrescenta Yang. “A expectativa de tratamento e a crença, mediadas em parte pelos circuitos de recompensa do cérebro, podem também contribuir para o alívio da dor induzido pela acupuntura.”

Contudo, ainda há mais para se vir a conhecer, segundo Yang:

“Uma teoria abrangente da acupuntura continua fora de alcance, mas os investigadores estão a começar a identificar padrões que poderão ajudar a prever quem beneficia mais do tratamento. “Em particular, interessa-me a possibilidade de identificar biomarcadores que prevejam a resposta ao tratamento e nos ajudem a compreender melhor quais os pacientes com maior probabilidade de beneficiar .“

 

Como a ciência entende os meridianos e os pontos de acupuntura

Uma das críticas apontadas à acupuntura era a referência a canais energéticos por onde circulava a energia vital (Qi), a que chamava meridianos. Mas até isso a ciência já desmitificou. Agora sabe-se que um meridiano é uma rede de feixes nervosos ao longo de todo o corpo, que são ativados quando estimulados, como por exemplo através da inserção de uma agulha.

“Alguns estudos exploraram também a forma como os mapas tradicionais da acupuntura coincidem com a anatomia. Investigadores relataram uma sobreposição de 80% entre os trajetos clássicos dos meridianos e as redes de tecido conjuntivo, regiões que parecem conter densidades mais elevadas de fibras nervosas do que as áreas circundantes. Uma análise concluiu que estes pontos densos podem conter 1,4 vezes mais fibras nervosas do que os pontos não relacionados com acupuntura.”

“O mapa tradicional dos meridianos deve ser reinterpretado como um profundo e antigo esquema das redes neurais e fasciais do corpo”, afirma Judith Schlaeger, professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade de Illinois Chicago. Os pontos mais eficazes são frequentemente aqueles que funcionam como portas de acesso privilegiadas ao sistema nervoso.”

Assim, segundo esta explicação, pode-se afirmar que os chineses documentaram há cerca de 4000 anos as redes neurais e fasciais do corpo humano, assim como os melhores sítios para estimular essas estruturas nervosas, e chamaram de meridianos e de pontos de acupuntura, respetivamente.
Foi, na altura, a compreensão possível para explicar o funcionamento do corpo humano. Mas o que é importante reter, é que isto é indicador que a medicina chinesa, embora milenar, está assente em premissas totalmente verdadeiras e que a ciência só o vem confirmar.

 

A mais recente abordagem nos estudos científicos

Uma das maiores dificuldades com que os cientistas se deparavam era conseguir comprovar os benefícios da acupuntura através de estudos que reunissem todos os critérios científicos. E dentro das várias adversidades experimentadas, a maior era criar um grupo de controlo em que fosse administrada corretamente a “acupuntura placebo”, o que então permitiria que o estudo cumprisse os critérios metodológicos necessários para produzir resultados cientificamente válidos e fiáveis.
Segundo a National Geographic, este desafio foi ultrapassado da seguinte forma:
 
A verdadeira face da acupuntura permaneceu evasiva”, afirma Schlaeger. “Os investigadores não tinham capacidade para utilizar a metodologia clínica definitiva - o ensaio clínico aleatório em dupla ocultação - para separar os efeitos fisiológicos genuínos da acupuntura do efeito placebo”.”

“Esse obstáculo poderá finalmente estar a mudar. A sua equipa acaba de concluir aquilo que descrevem como o primeiro ensaio clínico de acupuntura em dupla ocultação do mundo (em que nem as participantes - 89 mulheres com dor crónica vulvar - nem os próprios investigadores sabiam se estavam a ser utilizadas agulhas reais ou simuladas).”

“O ensaio foi possível graças a uma agulha placebo especialmente concebida, desenvolvida por Nobuari Takakura, da Universidade Ariake de Ciências Médicas e da Saúde de Tóquio, que oculta a profundidade da penetração da agulha. Ele explica que “sem um ambiente de estudo em dupla ocultação, seria impossível descodificar os mecanismos da acupuntura, porque os investigadores não conseguiriam distinguir o verdadeiro efeito fisiológico do poder da expectativa”.”

O que o estudo liderado por Schlaeger demonstrou foi o seguinte:

As conclusões da equipa, recentemente publicadas no Journal of Pain, mostram que tanto a acupuntura verdadeira como a simulada podem proporcionar alívio, mas não de forma igual. A acupuntura real oferece um alívio muito mais duradouro, chegando até 12 semanas em alguns casos, enquanto o efeito placebo diminuiu após quatro semanas. Como a acupuntura verdadeira cria uma microlesão que desencadeia a libertação de uma explosão de substâncias químicas, “o sistema nervoso central é estimulado”, explica Schlaeger, “ativando os mecanismos naturais de reparação a longo prazo do corpo”.”

Takakura acrescenta que isto demonstra que, embora exista um alívio impulsionado pelo placebo associado ao “ritual do cuidado”, “esse alívio desaparece rapidamente porque não existe um estímulo duradouro. Esta é a fronteira clara entre a natureza passageira do placebo e o efeito sustentado de uma intervenção verdadeira.”

Ou seja, na questão da dor, a acupuntura bem executada produzirá muito melhores resultados e por muito mais tempo, podendo mesmo estimular a reparação do corpo.
Assim, de acordo com os estudos científicos, pode-se concluir que a acupuntura pode tratar patologias dolorosas com muito sucesso. Contudo, quando administrada sem rigor, em que a acupuntura não passa de “puntura seca” apenas localizada no local da dor, o resultado é escasso e temporário, e ocorre por uma mistura de sorte e sugestão.

 

A acupuntura é vista como uma terapêutica de ponta no tratamento da dor

Tal como é referido na NG, a acupuntura cada vez mais é considerada uma terapêutica importante no tratamento da dor. É citando Kim Sung Chol, diretor da unidade de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa da Organização Mundial da Saúde (OMS):

“Compreender como funciona a acupuntura faz mais do que satisfazer a curiosidade científica. Pode transformar a forma como a dor é tratada globalmente, oferecendo uma opção de baixo custo e não viciante, numa altura em que os sistemas de saúde procuram alternativas aos fármacos.”

“Os resultados podem ser transformadores. Nos Estados Unidos, onde a crise dos opióides já causou mais de um milhão de mortes desde 2000, as abordagens não farmacológicas para o tratamento da dor estão a receber atenção renovada. Alguns estudos sugerem que a acupuntura pode reduzir tanto a dor pós-operatória como a necessidade de medicação opióide, embora os resultados variem.“

“No fim de contas, a visão para 2034 não passa por promover um sistema em detrimento de outro, mas sim por criar sistemas de saúde mais fortes que reflitam a forma como as pessoas procuram cuidados”, afirma Kim.“

 

Conclusão

Este artigo da National Geographic vem afirmar junto do público a total validade científica  da acupuntura, considerando-a mesmo uma terapêutica de excelência no tratamento da dor, mesmo a crónica.

Se quiser ler o artigo completo, em inglês, basta seguir o link: https:https://bit.ly/4dzhD4w

Embora não tenha sido abordado no artigo da NG, é importante referir que a acupuntura tem uma aplicação na saúde que vai muito além da dor, podendo ser utilizada para tratar cerca de uma centena de patologias, com a sua eficácia, em muitas destas doenças, a ser comprovada por estudos científicos.

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